As 10 Interações Medicamentosas
Mais Comuns em Portugal
As combinações de medicamentos que causam mais internamentos por reacção adversa em Portugal. Com mecanismo farmacológico, risco real e alternativas terapêuticas seguras.
As interações abaixo são baseadas em dados FDA, INFARMED e EMA. A gravidade depende sempre do doente específico — dose, função renal, comorbilidades e outros fármacos. Em caso de dúvida, consulta sempre um farmacêutico ou médico.
Varfarina + AINEs (Ibuprofeno, Naproxeno)
GRAVEOs AINEs inibem a COX-1 plaquetária (reduz agregação) e podem deslocar a varfarina da albumina, aumentando a fracção livre. O resultado é aumento do INR e risco de hemorragia gastrointestinal ou intracraniana.
Risco de hemorragia grave 3–15× superior ao basal. Um dos principais motivos de admissão hospitalar por reacção adversa em Portugal.
Paracetamol (com cautela — altas doses também afectam ligeiramente o INR) · AINE tópico para dor localizada · Tramadol (com precaução)
Sertralina/Fluoxetina + Tramadol
GRAVEAmbos aumentam a serotonina a nível central: os ISRS bloqueiam o recaptador (SERT) e o tramadol tem actividade serotoninérgica intrínseca. A combinação pode causar síndrome serotoninérgica — hipertermia, clonus, agitação, instabilidade autonómica.
Síndrome serotoninérgica é potencialmente fatal. Início em horas após a toma. Mais frequente com fluoxetina (semivida longa) e paroxetina.
Para dor crónica: paracetamol, AINE tópico, gabapentina · Para dor aguda: paracetamol + codeína (com precaução) · Evitar opióides com acção serotoninérgica
Atorvastatina/Sinvastatina + Claritromicina
GRAVEA claritromicina é um potente inibidor do CYP3A4, a enzima que metaboliza a maioria das estatinas. A inibição aumenta a AUC da atorvastatina em 3–4× e da sinvastatina até 10×. Níveis elevados de estatina causam miopatia e, nos casos graves, rabdomiólise.
Risco de rabdomiólise com insuficiência renal aguda secundária. A sinvastatina tem maior risco que a atorvastatina por maior metabolismo hepático.
Suspender a estatina durante o ciclo de antibiótico (5–7 dias) · Ou usar estatina não metabolizada pelo CYP3A4: rosuvastatina, pravastatina, fluvastatina
Metformina + Contraste Iodado IV
MODERADAO contraste iodado pode causar deterioração aguda da função renal. A metformina elimina-se exclusivamente por via renal — com IR, acumula-se e inibe o complexo I mitocondrial, produzindo acidose láctica.
Acidose láctica é rara mas com mortalidade elevada (>50%). O risco é maior em doentes com função renal borderline, IC, ou dose elevada de contraste.
Suspender metformina 48h antes e após contraste IV · Retomar apenas com TFG confirmada estável · Verificar TFG antes do exame
IECAs/ARA-II + Espironolactona
MODERADAAmbos aumentam o potássio: os IECAs/ARA-II reduzem a aldosterona (↓ excreção de K+) e a espironolactona bloqueia directamente os receptores mineralocorticóides. Efeito aditivo → hipercaliemia.
Hipercaliemia com risco de arritmias graves e paragem cardíaca. Risco aumentado com IR, diabetes, ou dose elevada de espironolactona.
Monitorizar K+ e creatinina no início e a cada 3 meses · Reduzir dose de espironolactona · Verificar outras fontes de K+ (suplementos, substitutos de sal)
Hipericão (Erva de São João) + Anticontraceptivos Orais
GRAVEO hipericão é um indutor potente do CYP3A4 e da P-glicoproteína. Aumenta o metabolismo dos estrogénios e progestagénios, reduzindo as concentrações plasmáticas em 50% ou mais.
Falha contraceptiva com gravidez não planeada. Documentados vários casos. Também afecta anticoncepcionais de emergência.
Suspender o hipericão · Usar método contraceptivo de barreira adicional durante e até 2 ciclos após suspensão
Amiodarona + Varfarina
GRAVEA amiodarona e os seus metabolitos inibem o CYP2C9 (metabolismo da varfarina-S, a mais potente) e o CYP3A4. O INR pode duplicar ou triplicar. O efeito persiste semanas a meses após parar a amiodarona pela sua semivida extremamente longa (40–55 dias).
Hemorragia grave. O aumento do INR pode demorar 1–4 semanas a ser máximo. Monitorização insuficiente causa eventos hemorrágicos graves.
Reduzir a dose de varfarina em 30–50% ao iniciar amiodarona · Monitorizar INR semanalmente nas primeiras 4–6 semanas · Considerar NOAC se elegível
Alopurinol + Azatioprina/Mercaptopurina
GRAVEO alopurinol inibe a xantina oxidase, a enzima que inactiva a mercaptopurina e a azatioprina (convertida em mercaptopurina). A inibição aumenta os níveis plasmáticos em 4× ou mais, causando toxicidade medular grave.
Mielossupressão severa: neutropenia, trombocitopenia, anemia aplástica. Pode ser fatal.
Evitar a combinação sempre que possível · Se necessário, reduzir a dose de azatioprina/mercaptopurina para 25% · Monitorizar hemograma semanalmente
Fluconazol + Estatinas (Sinvastatina)
MODERADAO fluconazol inibe o CYP3A4 e CYP2C9. A inibição do CYP3A4 aumenta significativamente os níveis de sinvastatina e lovastatina. O fluconazol também potencia o efeito da varfarina por inibição do CYP2C9.
Miopatia e risco de rabdomiólise com sinvastatina. Com varfarina, risco de hemorragia grave.
Suspender sinvastatina/lovastatina durante o tratamento com fluconazol · Alternativa: usar rosuvastatina (não afectada pelo CYP3A4)
Digoxina + Amiodarona/Verapamilo/Claritromicina
GRAVEAmiodarona e verapamilo inibem a P-gp e reduzem a clearance renal da digoxina, duplicando ou triplicando os níveis. A claritromicina inibe a P-gp intestinal, aumentando a absorção. Qualquer aumento da digoxinémia pode causar toxicidade.
Toxicidade digitálica: náuseas, alterações visuais (halos amarelos/verdes), bradiarritmias, taquiarritmia ventricular, bloqueio AV.
Reduzir dose de digoxina em 50% ao iniciar amiodarona · Monitorizar digoxinémia e ECG · Considerar alternativa ao verapamilo
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